“Os fios do passado a tecer o futuro”

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No passado dia 28 de maio, o Grupo de Encontro de Cidadãs do GAF – Projeto Manta de Retalhos, em conjunto com os alunos/as da Universidade Sénior visitaram, no período da manhã, o Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior – Covilhã. Neste espaço de preservação de memórias e de um significativo espólio fabril, os/as participantes tiveram a oportunidade de explorar o Núcleo da Real Fábrica de Panos dedicado à fase de pré industrialização dos lanifícios, onde foi possível encontrar informações sobre o fabrico e tingimento dos panos de lã e construção de um espaço manufactureiro. Desde logo, nesta etapa, se começaram a desfiar narrativas dos elementos do grupo que bem cedo na vida, com 11/12 anos, após terminarem a instrução primária, começaram a trabalhar nas emblemáticas fábricas do concelho de Gouveia. O trabalho executado era “manual e desgastante”, pois trabalhava-se entre 12 a 16 horas e os períodos de descanso eram mínimos. Seguiu-se a visita ao Núcleo da Real Fábrica Veiga, situado junto à Ribeira da Goldra, onde foi apresentada a evolução tecnológica ocorrida no campo dos lanifícios, durante os séculos XIX e XX. Neste percurso expositivo, foi apresentado ao grupo o processo de industrialização dos lanifícios assente no desenvolvimento das caldeiras a vapor, na valorização de recursos naturais – como a água, e na importância da localização das fábricas junto às ribeiras para a produção de energia, base da evolução do sistema hidráulico.

“Diferentes sexos, diferentes trabalhos, diferentes salários”

Destaque ainda para a secção dedicada ao mundo fabril –  o operariado. Como o grupo de cidadãs do GAF já tinha explorado quando se começou a debruçar sobre o tema, aqui foi possível encontrar referências ao quotidiano fabril e às desigualdades da época, em que o salário do homem era muito superior ao das mulheres e das crianças, sendo os tecelões os operários melhor remunerados. As mulheres realizavam trabalhos menos especializados, nas secções de fiação e preparação para a tecelagem. Realizavam, também, a escolha da lã e a supervisão e coerção dos tecidos acabados. Recebiam, aproximadamente, metade do salário dos homens. Foi na dureza do quotidiano fabril que surgiu o movimento operário que conduziu às greves que tinham por objetivo reivindicar aumentos salariais, a diminuição do horário laboral e melhorias das condições de trabalho.

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 Na parte da tarde, a cooperativa CooLabora abriu as portas para receber a manta de retalhos. Desfiando a meada de lã foram partilhadas situações de desigualdade entre mulheres e homens, que caracterizaram o percurso de vida das mulheres de Gouveia e da Covilhã. A teia uniu as pessoas, e ao som de cantares tradicionais, mais retalhos foram acrescentados à manta que se pretende grande em tamanho, e em transmissão de uma mensagem de combate às desigualdades entre mulheres e homens na comunidade.

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O dia foi vivido com entusiasmo por todos/as, tendo-se apenas constatado algum desencanto pelo facto de a exposição no Museu não ter uma referência particular ao concelho de Gouveia como ponto importante do desenvolvimento desta indústria, estando apenas assinalado o conjunto industrial da cidade no folheto do itinerário da Rota da Lã, que se encontra para venda ao público. Neste sentido, espera-se que o futuro possa ser pensado para que cidadãos/cidadãs e entidades responsáveis possam dar corpo à ideia de ter na cidade de Gouveia, um espaço que dignifique e preserve as memórias daqueles/as que trabalharam e construíram esta indústria.

 

Projeto Uma Aventura no Mundo da Cidadania

GAF/FCG/EEA Grants (Noruega, Islândia e Liechtenstein)

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